A misteriosa Ilha de Páscoa

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Seiscentas cabeças de pedra olham para o mar, fincadas no solo de uma remota ilha do Pacífico oriental, a 3219km da América do Sul. Sua origem por muito tempo foi um mistério.

Os ilhéus diziam que “as estátuas caminharam até os lugares onde se encontram”. Os exploradores holandeses que chegaram à ilha concluíram que as estátuas tinham sido arrastadas de pedreiras locais em trenós ou rolos de madeira. Mas na ilha não havia uma só árvore. Só no final do século 20 começou-se a descobrir o segredo das estátuas.

A remota fortaleza da ilha de Páscoa situa-se no canto mais a sudeste do triângulo polinésio; o Havaí e a Nova Zelândia ocupam os outros ângulos do triângulo. Os polinésios navegaram assim através de um mar de ilhas e de um oceano que não conheciam antes de terem chegado à ilha de Páscoa. A ilha cobre uma área de 116km e possui trê vulcões principais (Rano Aroi, Rano Raraku e Rano Koi), um dos quais, o Rano Raraku, forneceu toda a pedra necessária para a construção das estátuas.

No domingo de Páscoa de 1722, a tripulação de um barco holandês que navegava veloz ajudado pelos ventos alísios de sudeste, no Oceano Pacífico, avistou terra inesperadamente. Aproximando-se da costa, o almirante Jacob Roggeveen viu, com espanto, que a ilha estava coberta de estátuas gigantescas de costas voltadas para o mar e que algumas delas pareciam coroadas de topetes. Já em terra, o almirante reparou que os habitantes da ilha deveriam ser pobres – usavam ferramentas e armas de pedra e possuíam apenas umas canoas que eram simultaneamente pequenas e já muito reparadas.

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O capitão Cook, marinheiro inglês, visitou a ilha 50 anos mais tarde. Entre a tripulação que o acompanhava contava-se um marinheiro havaiano que entendia perfeitamente o que os autóctones diziam, dado que todos eram polinésios. Revelaram-lhe então serem descendentes dos escultores das estátuas. Segundo as suas lendas, tinham sido conduzidos para a ilha pelo chefe Hoto Matua e desde então 22 gerações tinham passado.

Cerca de 1000a.C., um povo de hábeis oleiros e navegadores, denominados “Lapitas” pelos arqueólogos, chegou a Fiji vindo da Nova Guiné. Cerca de 400 anos mais tarde os seus descendentes navegaram mais para leste à procura de novas ilhas.

Um texto em sânscrito descreve a perícia do piloto: “Ele conhece o curso das estrelas e sabe sempre orientar-se”. E ainda: “Distingue as regiões do oceano pelos peixes, pelos pássaros, pela cor das águas”.

Diz-se que cerca de 380d.C., o filho mais novo do chefe das ilhas Tuatomu se fez ao mar com alguns companheiros depois de uma rixa e rumou para sotavento. Viajaram durante muitos dias sem avistarem terra. Rumando mais para sotavento entraram na zona ds ventos fortes do ocidente; afastando-se para sul, eles desesperavam de não avistarem qualquer porto. A comida chegara praticamente ao fim. Mas, logo que o vento acalmou, viraram as canoas para norte e navegando velozes ajudados pelos ventos, chegaram à última ilha: “Te Pito o te Henua”, O Umbigo do Mundo.

Pode ter acontecido também, como o arqueólogo norueguês Thor Heyerdhal opinou, os primeiros colonos tenham vindo de leste, da América do Sul pré-Inca, trazendo consigo, nas suas jangadas, a batata-doce, os juncos que cresciam em profusão à volta dos lagos da ilha de Páscoa e a sua perícia no trabalho da pedra.

A construção das estátuas de pedra ou Moais

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Os habitantes da Ilha de Páscoa tornaram-se os escultores mais habilidosos das ilhas do Pacífico e cobriram algumas delas com enormes pedras habilmente talhadas e encaixadas com enorme precisão. Desde cerca de 400d.C., construíram junto à praia plataformas funerárias de pedra denominadas “ahu”, encimadas, algumas delas, por enormes pedras alinhadas, habilmente talhadas e dispostas.

As plataformas funerárias (ahu) eram construídas normalmente com blocos de rocha vulcânica perfeitamente ajustados. Situados à beira-mar, os ahu possuíam longas rampas enfeitadas com filas de seixos perfeitamente ordenadas. O maior ahu é o de Vinapu, na costa sul.

Enquanto o corpo do morto não era limpo da carne pelas aves, o vento e o tempo, ficando só o esqueleto, os ahu eram interditos. Depois, todo o clã se juntava, enterrava os ossos dentro do ahu e fazia festas em honra do falecido.

Para mais honrarem os antepassados e darem prova do vigor e robustez do clã, os habitantes da ilha de Páscoa esculpiam estátuas feitas de rocha macia proveniente de uma pequena elevação vulcânica, Rano Raraku. De ínicio as estátuas variavam quanto à forma. Mais tarde, cerca de 1100d.C., adquiriram uma forma única que se tornou dominante: uma figura masculina com a cabeça estilizada e grandes lóbulos auriculares, com o corpo decorado, por vezes como que tatuado. As estátuas colocadas sobre os ahu olhavam fixamente, com os seus olhos embutidos, as casas e os campos. Algumas autoridades na matéria sugerem que os “orelhas grandes” indicam o aparecimento de um novo grupo de colonos que teria vindo nessa altura para a ilha.

Em 1500d.C., aproximadamente, um novo culto tomou forma na ilha. Foi o do homem-pássaro, do deus Makemake. Da povoação cerimonial de Orongo, que se aperta de encontro aos penhascos perto da cratera de Rano Kau, os seguidores deste culto fazem todos os anos uma corrida até a costa e nadam até à ilhota de Moto Nui para verem qual é o primeiro a trazer um ovo deixado pelas andorinhas-do-mar-pretas depois de sua migração anual. Acreditava-se que esses pássaros eram uma encarnação de Makemake, e seus ovos eram sagrados. O chefe da primeira tribo que tinha recolhido um ovo da dita ilhota tornava-se o novo homem-pássaro – um deus-homem ao qual era conferido grande poder. Havia cerimônias comemorativas com sacrifícios de aves e inclusive de seres humanos.

O aparecimento do culto do Makemake pode significar que um outro grupo de colonos tenha chegado à ilha numa data posterior a 1400d.C. mas não é possível ter certeza deste fato.Diz-se também, que a ânsia de fugir da ilha fez surgir o culto do homem pássaro, expressando o desejo de voar para longe, como as fragatas. Sabe-se no entanto que em determinada altura, depois de 1600d.C., deflagrou uma guerra. A madeira escasseou e, sem ela, a vida tornou-se dura: não podiam substituir as canoas destruídas, não podiam construir boas casas. Sem árvores, o solo deteriorava-se e, como a produção agrícola diminuíra, a comida começou a faltar. As mulheres e crianças capturadas na guerra em comidas pelos seus captores. O ahu fora tomado pelos inimigos e as imagens ancestrais subvertidas.

A lenda dá-nos conta de uma grande batalha uma geração antes, apenas, da chegada dos barcos europeus que terminou na captura e massacre dos “orelhas grandes” pelos “orelhas pequenas”. Estes povos devem ter sido os últimos descendentes das diferentes culturas de leste e oeste, levados à guerra quando as árvores desapareceram e a fome se instalou.

Às raras visitas dos barcos europeus ofereciam o espetáculo de uma luta sem tréguas, de ódio e miséria. Em 1838 eram poucas as grandes estátuas que se mantinham de pé. Em 1862, barcos de escravos peruanos carregavam todos os homens e mulheres que aparentassem robustez para irem trabalhar nas minas do Peru. Os poucos que regressaram trouxeram varíola e lepra. Em 1877 a população da ilha reduzia-se a 110 indivíduos. Em 1888 a ilha era anexada ao Chile. Com melhor alimentação e cuidados médicos, algumas pessoas sobreviveram para assistirem à conversão da sua ilha no centro de um dos maiores enigmas do mundo moderno.

Hierarquia religiosa

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As crenças dos moradores da Ilha de Páscoa eram muito diferentes das do resto da Polinésia. O deus principal, Makemake, não pertencia a nenhum panteão de nenhuma outra ilha, embora se acreditasse que tivesse saído do ovo de Tangaroa, o mais importante deus polinésio.

Diz a lenda que Hotu Matua foi o primeiro homem a chegar à ilha. O rei, que vivia no recinto real sagrado de Anakena, foi sempre um membro do clã dos Honga, que se julgavam descendentes de Hotu Matua e herdeiros do seu poder divino, o mana.

A ilha dividia-se em seis distritos chamados mata; pouco antes de morrer, Hotu Matua distribuiu as terras entre os seus seis filhos, e o poder de cada mata variava segundo essa disposição. Cada mata abarcava uma parte do litoral, correndo depois para o interior. Cada distrito construiu o seu ahu perto da costa, de modo que os moais (estátuas de pedra), que miravam para o interior, pudessem guardar a comunidade. Os ahus também eram centros de rituais religiosos e lugar de sepultamento para os membros mais importantes da linhagem. O número de moais em cada ahu provavelmente tinha a ver com a sua importância; até mesmo na morte conservava-se a divisão hierárquica da sociedade. As casas dos sacerdotes e dos chefes eram próximas aos ahus, e o resto da população habitava o interior, de acordo com a sua classe social.

Apesar das divisões sociais, cada ilhéu reverenciava igualmente os deuses. Cada ato era acompanhado de uma oração ou ritual breves. Apenas para os atos importantes os sacerdotes e reis eram chamados a fim de que utilizassem o seu mana.

Dados sobre os Moais

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– Eram construídos em honra aos chefes mortos, os moais não tinham todos a mesma importância. Algumas tribos eram mais poderosas e seus chefes mais importantes. No sul da ilha encontram-se estátuas com chapéus feitos de rocha vulcânica vermelha, o que pode simbolizar um poder ainda maior.

– As estátuas, hoje, são destituídas de olhos. Mas originariamente, seus escultores preenchiam suas órbitas com coral branco ou rocha de escória vermelha.

– Existem entre 800 e 1000 estátuas na ilha. Sua altura média é de 4m. A maior delas tem 20m de altura e é a mais pesada, com 300 toneladas.

– A maioria das estátuas era feito de tufo vulcânico.

– O moai clássico tem a figura característica de um homem: cabeça alongada, lábios finos, testa abaulada e braços colados aos flancos.

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Bibliografia: Atlas do Extraordinário – Lugares Misteriosos vol. 2 (Ediciones del Prado); Atlas dos Lugares Sagrados – Colin Wilson (Organizado pela Revista Planeta).